quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O que nos fortalece...

Amizade...quanta força essa palavra carrega...ela enche nossa vida, preenche vários vazios que podem nos assustar algumas vezes, é recomendada por cardiologistas porque deixa o coração aquecido, reconfortado, fortalecido...
Amizade unifica, protege, revigora.
Amigos são bens preciosos que devemos cuidar e guardar, em todos os momentos, bons ou ruins, porque amigos sempre estão prontos a dizer e a ouvir qualquer palavra, não apenas aquelas doces e fáceis de serem ditas, mas também e principalmente, palavras que muitas vezes vão machucar para depois nos proteger. Com amigos não tem meio termo, tem união...amor...puxão de orelha...confiança e cumplicidade.
Quando olho para trás e vejo todos os amigos que ganhei....nossa meu coração pula...sério...pula mesmo, foram tantos, e tão fortes, e tão bonitos e leais, chega a dar vontade de chorar. Mesmo que em momentos de minha vida, eu tenha sido mais recolhida, tímida e solitária, sempre tive amigos maiores que qualquer barreira. Mesmo que algumas dessas amizades tenham ficado paradas no meio do caminho, o contato não seja constante, a distância dificulte...a presença dessas pessoas se faz sempre forte, sempre...e o que esses amigos me doaram nunca vai se perder...podem- se passar anos e anos...quando nos falamos, é como se sempre estivéssemos juntos...
Existem forças maiores do que podemos compreender, e na verdade nem precisam ser compreendidas, o ideal é se jogar e sentir o mais intensamente possível...com a amizade é assim, e eu sempre fiz questão de me jogar, viver, confiar e posso dizer que em 90% das vezes deu certo...claro que não pode ser 100%...decepções fazem parte de qualquer processo e nos estimulam a valorizar ainda mais o que temos.
Então...te convido...se jogue...ame sempre...sempre...e admire tudo, mesmo quem está contra você tem qualidades admiráveis, e recomendo: ódio risque do seu vocabulário, palavra feiosinha e pesada, acho estranho pessoas que dizem “ eu odeio”...é muito forte e faz mal pro fígado. Raiva é normal, porque ela passa, vai embora sozinha e cabisbaixa ...Se jogue, se doe sem medo...vale a pena, não deu certo na primeira tentativa, se doe novamente...e assim vc vai construindo as pessoas e sendo construída por elas...é mágico.
Amo meus amigos...e é gostoso!!!

Amigos

Amizade, empatia
As vezes enigmático...
Por vezes nostálgico,
que nos contagia.

As vezes profundo,
Nem sempre presente,
Talvez coerente,
Ou um pouco confuso.

Amigo que ama,
Que sofre ao seu lado,
Tem sempre um recado,
E nunca reclama.

Ao ser cativado,
Ensina e aprende,
Que amar não depende...
De um muito obrigado.


( autora: Feiticeira da Montanha)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Rebolativas


Ainda falando sobre, sonhos, sonecas e acordar feliz....
Tem uma cena do filme “As Panteras”, que eu particularmente gosto muito. Logo no início do filme a Cameron Diaz sonha que está arrasando nas pistas de dança e acorda feliz, levanta sorrindo, rebolativa e dançando ...àh gostei de verdade, e adoro colocar essa cena em prática na minha vida em algumas manhãs. Experimente, é muito bom, principalmente quando você pode ficar se olhando no espelho, ai a vontade de rir aumenta...rsrsrsrsrsrsrsrsrs
Que o mundo tenha mais sorrisos internos e rebolados matinais
Vamos lá...todo mundo rebolando...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Meus sonhos


Não sei se com todos acontece o mesmo, mas tem dias que um sonho me acompanhada durante todo momento...Acho meio incrível esse instante tão íntimo e tão fora de controle, que nos leva a lugares que nem conhecemos, nós traz pessoas queridas ou esquecidas, algumas vezes nos fazendo sentir ate mesmo premonições. Estudiosos não conseguem chegar nem perto do verdadeiro significado dos sonhos, cada um tem uma teoria, e novos pontos de vista surgem a cada dia.
Quando eu era criança, sempre tinha o mesmo sonho todas as noites, era um momento tão mágico, que até hoje sinto um arrepio ao lembrar...não sei se eu acredito, mas era como se esse sonho fosse a lembrança de uma vida anterior...quando fiz sete anos, os sonhos se foram mas me deixaram um certo vazio, queria poder agora conseguir interpretá-los melhor. Quando eu tinha onze anos, sonhei que meu amigo ( e primeira paixonite da infância ) gritava por ajuda, passei aquele dia sentindo meu coraçãozinho tão apertado e no fim da tarde recebi a notícia...mesmo agora, dói ao me lembrar, meu amigo, o menino com quem dancei minha primeira música romântica, tema da novela A Gata Comeu , faleceu ao 13 anos...Foram momentos difíceis aqueles, uma tristeza gigantesca em todos nós, amigos da rua e do bairro, e eu sempre sonhava com ele, meus pais trabalhavam fora e eu ficava em casa sozinha e se dormia à tarde, chegava até a sentir a presença dele, e eu não sabia se gostava ou detestava essa sensação, de ter ele presente. Muitos anos depois, eu ainda sonhava com ele e seu olhar triste.
Sei que em diferentes etapas da minha vida, quando alguma coisa estava pra acontecer ou mudar, sempre existiram os sonhos, em uma das perdas mais tristes que sofri a poucos anos atrás, eu e minha mãe tivemos o mesmo sonho, ligado a pessoa que nos deixou. Mas por favor, existem também, e sobretudo, os sonhos relacionados a instantes de felicidade plena, levaria muito tempo pra contar, sonhos de uma intensidade absurda, nem parecem sonhos...sonhos com a minha metade que faltava...sonhos com a minha afilhada que eu tanto esperava...sonhos com pessoas queridas que ganhei de presente.
A alguns anos, tenho sonhado diariamente com uma amiga de infância que mora em Minas, nossa amizade sempre foi muito forte e bonita, mas infelizmente, depois que me mudei para o Rio e ela se casou, acabamos perdendo o contato, e nos meu sonhos estamos sempre cheias de saudades e novidades para contar...e esse é um dos sonhos que me acompanha o dia inteiro, fico com a lembrança de nossa cumplicidade no coração, e isso torna meu dia mais saudoso e mais bonito...mas sempre fico aqui me perguntando a finalidade desse poder que nos foi dado de viajar no tempo, no espaço, encurtando os caminhos, buscando sentimentos, virando realidade, matando saudades e deixando no peito uma nova emoção sem explicação...

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O Caçador de Pipas


Sempre tive um pouco de receio de assistir a filmes baseados em livros, principalmente quando eu gostava muito do livro e já tinha os personagens todos criados aqui na minha imaginação. Quando vinha o filme, pronto, matava tudo que eu tinha criado. Com muitos filme da Agatha Christie, me senti assim. Mas ontem ao ver o filme O Caçador de Pipas, (baseado no livro de mesmo nome do autor Khaled Hosseini), e apesar dos personagens do filme serem completamente diferentes na minha imaginação, confesso que tive uma alegre surpresa, apesar das críticas não favoráveis que li sobre o mesmo, na minha opinião ficou aprovado. O filme deixou certos assuntos abordados no livro de fora, pois o livro também foi bem detalhista em muitos pontos, e fez um apanhado das partes mais significativas. Eu como boa manteiga derretida que sou, chorei rios tanto lendo o livro, quanto assistindo ao filme

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008


"Não há paciência para uma paisagem, para um deslumbramento, para um silêncio. Ao menos não aqui, nos trilhos urbanos, onde todos assistem à vida passar como se estivessem na janela de um Trem (...) Empurrados pôr este ritmo alucinante do cotidiano, fazemos uma leitura dinâmica dos fatos (...). Fatos pessoais, diários, que mereceriam uma espiada menos veroz (..) A vida não vem com air-bag: uma freada agora, a esta velocidade, seria fatal. Em frente, então. Mas que cada um saiba criar sua área privativa de descanso: um livro no final da noite, um fim de semana na praia, uma caminhada pela manhã, uma meditação básica. Refúgios que permitam continuar seguindo a viagem sem perder a melhor parte, que é nossa reflexão sobre o que acontece lá fora, já que não dá para saltar deste trem-bala." (Trecho da crônica "Trem-bala") Martha Medeiros publica suas crônicas no Jornal Zero Hora de Porto Alegre

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Um conto de Machado de Assis:

O DIPLOMÁTICO


A PRETA entrou na sala de jantar, chegou-se à mesa rodeada de gente,
e falou baixinho à senhora. Parece que lhe pedia alguma cousa urgente, porque
a senhora levantou-se logo.
— Ficamos esperando, D. Adelaide?
— Não espere, não, Sr. Rangel; vá continuando, eu entro depois.
Rangel era o leitor do livro de sortes. Voltou a página, e recitou um
título: "Se alguém lhe ama em segredo." Movimento geral; moças e rapazes
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sorriram uns para os outros. Estamos na noite de São João de 1854, e a casa é
na rua das Mangueiras. Chama-se João o dono da casa, João Viegas, e tem uma
filha, Joaninha. Usa-se todos os anos a mesma reunião de parentes e amigos,
arde uma fogueira no quintal, assam-se as batatas do costume, e tiram-se
sortes. Também há ceia, às vezes dança, e algum jogo de prendas, tudo
familiar. João Viegas é escrivão de uma vara cível da Corte.
— Vamos. Quem começa agora? disse ele. Há de ser D. Felismina.
Vamos ver se alguém lhe ama em segredo.
D. Felismina sorriu amarelo. Era uma boa quarentona, sem prendas
nem rendas, que vivia espiando um marido por baixo das pálpebras devotas.
Em verdade, o gracejo era duro, mas natural. D. Felismina era o modelo
acabado daquelas criaturas indulgentes e mansas, que parecem ter nascido para
divertir os outros. Pegou e lançou os dados com um ar de complacência
incrédula. Número dez, bradaram duas vozes. Rangel desceu os olhos ao baixo
da página, viu a quadra correspondente ao número, e leu-a: dizia que sim, que
havia uma pessoa, que ela devia procurar domingo, na igreja, quando fosse à
missa. Toda a mesa deu parabéns a D. Felismina, que sorriu com desdém, mas
interiormente esperançada.
Outros pegaram nos dados, e Rangel continuou a ler a sorte de cada
um. Lia espevitadamente. De quando em quando, tirava os óculos e limpava-os
com muito vagar na ponta do lenço de cambraia, — ou por ser cambraia, — ou
por exalar um fino cheiro de bogari. Presumia de grande maneira, e ali
chamavam-lhe "o diplomático".
— Ande, seu diplomático, continue.
Rangel estremeceu; esquecera-se de ler uma sorte, embebido em
percorrer a fila de moças que ficava do outro lado da mesa. Namorava alguma?
Vamos por partes.
Era solteiro, por obra das circunstâncias, não de vocação. Em rapaz
teve alguns namoricos de esquina, mas com o tempo apareceu-he a comichão
das grandezas, e foi isto que lhe prolongou o celibato até os quarenta e um
anos, em que o vemos. Cobiçava alguma noiva superior a ele e à roda em que
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vivia, e gastou o tempo em esperá-la. Chegou a freqüentar os bailes de um
advogado célebre e rico, para quem copiava papéis, e que o protegia muito.
Tinha nos bailes a mesma posição subalterna do escritório; passava a noite
vagando pelos corredores, espiando o salão, vendo passar as senhoras,
devorando com os olhos uma multidão de espáduas magníficas e talhes
graciosos. Invejava os homens, e copiava-os. Saía dali excitado e resoluto. Em
falta de bailes, ia às festas de igreja, onde poderia ver algumas das primeiras
moças da cidade. Também era certo no saguão do paço imperial, em dia de
cortejo, para ver entrar as grandes damas e as pessoas da corte, ministros,
generais, diplomatas, desembargadores, e conhecia tudo e todos, pessoas e
carruagens. Voltava da festa e do cortejo, como voltava do baile, impetuoso,
ardente, capaz de arrebatar de um lance a palma da fortuna.
O pior é que entre a espiga e a mão há o tal muro do poeta, e o Rangel
não era homem de saltar muros. De imaginação fazia tudo, raptava mulheres e
destruía cidades. Mais de uma vez foi, consigo mesmo, ministro de Estado, e
fartou-se de cortesias e decretos. Chegou ao extremo de aclamar-se imperador,
um dia, 2 de dezembro, ao voltar da parada no largo do Paço; imaginou para
isso uma revolução, em que derramou algum sangue, pouco, e uma ditadura
benéfica, em que apenas vingou alguns pequenos desgostos de escrevente. Cá
fora, porém, todas as suas proezas eram fábulas. Na realidade, era pacato e
discreto.
Aos quarenta anos desenganou-se das ambições; mas a índole ficou a
mesma, e, não obstante a vocação conjugal, não achou noiva. Mais de uma o
aceitaria com muito prazer; ele perdia-as todas, à força de circunspecção. Um
dia, reparou em Joaninha, que chegava aos dezenove anos e possuía um par de
olhos lindos e sossegados, — virgens de toda a conversação masculina. Rangel
conhecia-a desde criança, andara com ela ao colo, no Passeio Público, ou nas
noites de fogo da Lapa; como falar-lhe de amor? Mas, por outro lado, as
relações dele na casa eram tais, que podiam facilitar-lhe o casamento; e, ou
este ou nenhum outro.
Desta vez, o muro não era alto, e a espiga era baixinha; bastava esticar
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o braço com algum esforço, para arrancá-la do pé. Rangel andava neste
trabalho desde alguns meses. Não esticava o braço, sem espiar primeiro para
todos os lados, a ver se vinha alguém, e, se vinha alguém, disfarçava e ia-se
embora. Quando chegava a esticá-lo, acontecia que uma lufada de vento
meneava a espiga ou algum passarinho andava ali nas folhas secas, e não era
preciso mais para que ele recolhesse a mão. Ia-se assim o tempo, e a paixão
entranhava-se-lhe, causa de muitas horas de angústia, a que seguiam sempre
melhores esperanças. Agora mesmo traz ele a primeira carta de amor, disposto
a entregá-la. Já teve duas ou três ocasiões boas, mas vai sempre espaçando; a
noite é tão comprida! Entretanto, continua a ler as sortes, com a solenidade de
um áugur.
Tudo, em volta, é alegre. Cochicham ou riem, ou falam ao mesmo
tempo. O tio Rufino, que é o gaiato da família, anda à roda da mesa com uma
pena, fazendo cócegas nas orelhas das moças. João Viegas está ansioso por um
amigo, que se demora, o Calisto. Onde se meteria o Calisto?
— Rua, rua, preciso da mesa; vamos para a sala de visitas.
Era D. Adelaide que tornava; ia pôr-se a mesa para a ceia. Toda a
gente emigrou, e andando é que se podia ver bem como era graciosa a filha do
escrivão. Rangel acompanhou-a com grandes olhos namorados. Ela foi à
janela, por alguns instantes, enquanto se preparava um jogo de prendas, e ele
foi também; era a ocasião de entregar-lhe a carta.
Defronte, numa casa grande, havia um baile, e dançava-se. Ela olhava,
ele olhou também. Pelas janelas viam passar os pares, cadenciados, as senhoras
com as suas sedas e rendas, os cavalheiros finos e elegantes, alguns
condecorados. De quando em quando, uma faísca de diamantes, rápida,
fugitiva, no giro da dança. Pares que conversavam, dragonas que reluziam,
bustos de homem inclinados, gestos de leques, tudo isso em pedaços, através
das janelas, que não podiam mostrar todo o salão, mas adivinhava-se o resto.
Ele ao menos conhecia tudo, e dizia tudo à filha do escrivão. O demônio das
grandezas, que parecia dormir, entrou a fazer as suas arlequinadas no coração
do nosso homem, e ei-lo que tenta seduzir também o coração da outra.
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— Conheço uma pessoa que estaria ali muito bem, murmurou Rangel.
E Joaninha, com ingenuidade:
— Era o senhor.
Rangei sorriu lisonjeado, e não achou que dizer. Olhou para os lacaios
e cocheiros, de libré, na rua conversando em grupos ou reclinados no tejadilho
dos carros. Começou a designar carros: este é do Olinda, aquele é do
Maranguape; mas aí vem outro, rodando, do lado da rua da Lapa, e entra na rua
das Mangueiras. Parou defronte: salta o lacaio, abre a portinhola, tira o chapéu
e perfila-se. Sai de dentro uma calva, uma cabeça, um homem, duas comendas,
depois uma senhora ricamente vestida; entram no saguão, e sobem a escadaria,
forrada de tapete e ornada embaixo com dois grandes vasos.
— Joaninha, Sr. Rangel...
Maldito jogo de prendas! Justamente quando ele formulava, na cabeça,
uma insinuação a propósito do casal que subia, e ia assim passar naturalmente
à entrega da carta... Rangel obedeceu, e sentou-se defronte da moça. D.
Adelaide, que dirigia o jogo de prendas, recolhia os nomes; cada pessoa devia
ser uma flor. Está claro que o tio Rufino, sempre gaiato, escolheu para si a flor
da abóbora. Quanto ao Rangel, querendo fugir ao trivial, comparou
mentalmente as flores, e quando a dona da casa lhe perguntou pela dele,
respondeu com doçura e pausa:
— Maravilha, minha senhora.
— O pior é não estar cá o Calisto! suspirou o escrivão.
— Ele disse mesmo que vinha?
— Disse; ainda ontem foi ao cartório, de propósito, avisar-me de que
viria tarde, mas que contasse com ele: tinha de ir a uma brincadeira na rua da
Carioca...
— Licença para dous! bradou uma voz no corredor.
— Ora graças! está aí o homem!
João Viegas foi abrir a porta; era o Calisto, acompanhado de um rapaz
estranho, que ele apresentou a todos em geral: — "Queirós, empregado na
Santa Casa; não é meu parente, apesar de se parecer muito comigo; quem vê
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um, vê outro..." Toda a gente riu; era uma pilhéria do Calisto, feio como o
diabo, — ao passo que o Queirós era um bonito rapaz de vinte e seis a vinte e
sete anos, cabelo negro, olhos negros e singularmente esbelto. As moças
retraíram-se um pouco; D. Felismina abriu todas as velas.
— Estávamos jogando prendas, os senhores podem entrar também,
disse a dona da casa. Joga, Sr. Queirós?
Queirós respondeu afirmativamente e passou a examinar as outras
pessoas. Conhecia algumas, e trocou duas ou três palavras com elas. Ao João
Viegas disse que desde muito tempo desejava conhecê-lo, por causa de um
favor que o pai lhe deveu outrora, negócio de foro. João Viegas não se
lembrava de nada, nem ainda depois que ele lhe disse o que era; mas gostou de
ouvir a notícia, em público, olhou para todos, e durante alguns minutos
regalou-se calado.
Queirós entrou em cheio no jogo. No fim de meia hora, estava familiar
da casa. Todo ele era ação, falava com desembaraço, tinha os gestos naturais e
espontâneos. Possuía um vasto repertório de castigos para jogo de prendas,
coisa que encantou a toda a sociedade, e ninguém os dirigia melhor, com tanto
movimento e animação, indo de um lado para outro, concertando os grupos,
puxando cadeiras, falando às moças, como se houvesse brincado com elas em
criança.
— D. Joaninha aqui, nesta cadeira; D. Cesária, deste lado, em pé, e o
Sr. Camilo entra por aquela porta... Assim, não: olhe, assim de maneira que...
Teso na cadeira, o Rangel estava atônito. Donde vinha esse furacão? E
o furacão ia soprando, levando os chapéus dos homens, e despenteando as
moças, que riam de contentes: Queirós daqui, Queirós dali, Queirós de todos os
lados. Rangel passou da estupefação à mortificação. Era o cetro que lhe caía
das mãos. Não olhava para o outro, não se ria do que ele dizia, e respondia-lhe
seco. Interiormente, mordia-se e mandava-o ao diabo, chamava-o bobo alegre,
que fazia rir e agradava, porque nas noites de festa tudo é festa. Mas, repetindo
essas e piores coisas, não chegava a reaver a liberdade de espírito. Padecia
deveras, no mais íntimo do amor-próprio; e o pior é que o outro percebeu toda
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essa agitação, e o péssimo é que ele percebeu que era percebido.
Rangel, assim como sonhava os bens, assim também as vinganças. De
cabeça, espatifou o Queirós; depois cogitou a possibilidade de um desastre
qualquer, uma dor bastava, mas cousa forte, que levasse dali aquele intruso.
Nenhuma dor, nada; o diabo parecia cada vez mais lépido, e toda a sala
fascinada por ele. A própria Joaninha, tão acanhada, vibrava nas mãos de
Queirós, como as outras moças; e todos, homens e mulheres, pareciam
empenhados em servi-lo. Tendo ele falado em dançar, as moças foram ter com
o tio Rufino, e pediram que tocasse uma quadrilha na flauta, uma só, não se lhe
pedia mais.
— Não posso, dói-me um calo.
— Flauta? bradou o Calisto. Peçam ao Queirós que nos toque alguma
coisa, e verão o que é flauta... Vai buscar a flauta, Rufino. Ouçam o Queirós.
Não imaginam como ele é saudoso na flauta!
Queirós tocou a Casta Diva. Que cousa ridícula! dizia consigo o
Rangel — uma música que até os moleques assobiam na rua. Olhava para ele,
de revés, para considerar se aquilo era posição de homem sério; e concluía que
a flauta era um instrumento grotesco. Olhou também para Joaninha, e viu que,
como todas as outras pessoas, tinha a atenção no Queirós, embebida, namorada
dos sons da música, e estremeceu, sem saber por quê. Os demais semblantes
mostravam a mesma expressão dela, e, contudo, sentiu alguma coisa que lhe
complicou a aversão ao intruso. Quando a flauta acabou, Joaninha aplaudiu
menos que os outros, e Rangel entrou em dúvida se era o habitual
acanhamento, se alguma especial comoção... Urgia entregar-lhe a carta.
Chegou a ceia. Toda a gente entrou confusamente na sala, e felizmente
para o Rangel, coube-lhe ficar defronte de Joaninha, cujos olhos estavam mais
belos que nunca e tão derramados, que não pareciam os do costume. Rangel
saboreou-os caladamente, e reconstruiu todo o seu sonho que o diabo do
Queirós abalara com um piparote. Foi assim que tornou a ver-se, ao lado dela,
na casa que ia alugar, berço de noivos, que ele enfeitou com os ouros da
imaginação. Chegou a tirar um prêmio na loteria e a empregá-lo todo em sedas
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e jóias para a mulher, a linda Joaninha — Joaninha Rangel — D. Joaninha
Rangel — D. Joana Viegas Rangel — ou D. Joana Cândida Viegas Rangel...
Não podia tirar o Cândida...
— Vamos, uma saúde, seu diplomático... faça uma saúde daquelas...
Rangel acordou; a mesa inteira repetia a lembrança do tio Rufino; a
própria Joaninha pedia-lhe uma saúde, como a do ano passado. Rangel
respondeu que ia obedecer; era só acabar aquela asa de galinha. Movimento,
cochichos de louvor; D. Adelaide, dizendo-lhe uma moça que nunca ouvira
falar o Rangel:
— Não? perguntou com pasmo. Não imagina; fala muito bem, muito
explicado, palavras escolhidas, e uns bonitos modos...
Comendo, ia ele dando rebate a algumas reminiscências, frangalhos de
idéias, que lhe serviam para o arranjo das frases e metáforas. Acabou e pôs-se
de pé. Tinha o ar satisfeito e cheio de si. Afinal, vinham bater-lhe à porta.
Cessara a farandolagem das anedotas, das pilhérias sem alma, e vinham ter
com ele para ouvir alguma cousa correta e grave. Olhou em derredor, viu todos
os olhos levantados, esperando. Todos não; os de Joaninha enviesavam-se na
direção do Queirós, e os deste vinham esperá-los a meio caminho, numa
cavalgada de promessas. Rangel empalideceu. A palavra morreu-lhe na
garganta; mas era preciso falar, esperavam por ele, com simpatia, em silêncio.
Obedeceu mal. Era justamente um brinde ao dono da casa e à filha.
Chamava a esta um pensamento de Deus, transportado da imortalidade à
realidade, frase que empregara três anos antes, e devia estar esquecida. Falava
também do santuário da família, do altar da amizade, e da gratidão, que é a flor
dos corações puros. Onde não havia sentido, a frase era mais especiosa ou
retumbante. Ao todo, um brinde de dez minutos bem puxados, que ele
despachou em cinco e sentou-se.
Não era tudo. Queirós levantou-se logo, dois ou três minutos depois,
para outro brinde, e o silêncio foi ainda mais pronto e completo. Joaninha
meteu os olhos no regaço, vexada do que ele iria dizer; Rangel teve um arrepio.
— O ilustre amigo desta casa, o Sr. Rangel — disse Queirós, — bebeu
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às duas pessoas cujo nome é o do santo de hoje; eu bebo àquela que é a santa
de todos os dias, a D. Adelaide.
Grandes aplausos aclamaram esta lembrança, e D. Adelaide,
lisonjeada, recebeu os cumprimentos de cada conviva. A filha não ficou em
cumprimentos. — Mamãe! mamãe! exclamou, levantando-se; e foi abraçá-la e
beijá-la três e quatro vezes; — espécie de carta para ser lida por duas pessoas.
Rangel passou da cólera ao desânimo, e, acabada a ceia, pensou em
retirar-se. Mas a esperança, demônio de olhos verdes, pediu-lhe que ficasse, e
ficou. Quem sabe? Era tudo passageiro, cousas de uma noite, namoro de São
João; afinal, ele era amigo da casa, e tinha a estima da família; bastava que
pedisse a moça, para obtê-la. E depois esse Queirós podia não ter meios de
casar. Que emprego era o dele na Santa Casa? Talvez alguma cousa reles...
Nisto, olhou obliquamente para a roupa de Queirós, enfiou-se-lhe pelas
costuras, escrutou o bordadinho da camisa, apalpou os joelhos das calças, a
ver-lhe o uso, e os sapatos, e concluiu que era um rapaz caprichoso, mas
provavelmente gastava tudo consigo, e casar era negócio sério. Podia ser
também que tivesse mãe viúva, irmãs solteiras... Rangel era só.
— Tio Rufino, toque uma quadrilha.
— Não posso; flauta depois de comer faz indigestão. Vamos a um
víspora.
Rangel declarou que não podia jogar, estava com dor de cabeça: mas
Joaninha veio a ele e pediu-lhe que jogasse com ela, de sociedade. — "Meia
coleção para o senhor, e meia para mim", disse ela, sorrindo; ele sorriu também
e aceitou. Sentaram-se ao pé um do outro. Joaninha falava-lhe, ria, levantava
para ele os belos olhos, inquieta, mexendo muito a cabeça para todos os lados.
Rangel sentiu-se melhor, e não tardou que se sentisse inteiramente bem. Ia
marcando à toa, esquecendo alguns números, que ela lhe apontava com o dedo,
— um dedo de ninfa, dizia ele, consigo; e os descuidos passaram a ser de
propósito, para ver o dedo da moça, e ouvi-la ralhar: "O senhor é muito
esquecido; olhe que assim perdemos o nosso dinheiro..."
Rangel pensou em entregar-lhe a carta por baixo da mesa; mas não
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estando declarados, era natural que ela a recebesse com espanto e estragasse
tudo; cumpria avisá-la. Olhou em volta da mesa: todos os rostos estavam
inclinados sobre os cartões, seguindo atentamente os números. Então, ele
inclinou-se à direita, e baixou os olhos aos cartões de Joaninha, como para
verificar alguma coisa.
— Já tem duas quadras, cochichou ele.
— Duas, não; tenho três.
— Três, é verdade, três. Escute...
— E o senhor?
— Eu duas.
— Que duas o quê? São quatro.
Eram quatro; ela mostrou-lhas inclinada, roçando quase a orelha pelos
lábios dele; depois, fitou-o rindo e abanando a cabeça: "O senhor! o senhor!"
Rangel ouviu isto com singular deleite; a voz era tão doce, e a expressão tão
amiga, que ele esqueceu tudo, agarrou-a pela cintura, e lançou-se com ela na
eterna valsa das quimeras. Casa, mesa, convivas, tudo desapareceu, como obra
vã da imaginação, para só ficar a realidade única, ele e ela, girando no espaço,
debaixo de um milhão de estrelas, acesas de propósito para alumiá-los.
Nem carta, nem nada. Perto da manhã foram todos para a janela ver
sair os convidados do baile fronteiro. Rangel recuou espantado. Viu um aperto
de dedos entre o Queirós e a bela Joaninha. Quis explicá-lo, eram aparências,
mas tão depressa destruía uma como vinham outras e outras, à maneira das
ondas que não acabam mais. Custava-lhe entender que uma só noite, algumas
horas bastassem a ligar assim duas criaturas; mas era a verdade clara e viva dos
modos de ambos, dos olhos, das palavras, dos risos, e até da saudade com que
se despediram de manhã.
Saiu tonto. Uma só noite, algumas horas apenas! Em casa, aonde
chegou tarde, deitou-se na cama, não para dormir, mas para romper em
soluços. Só consigo, foi-se-lhe o aparelho da afetação, e já não era o
diplomático, era o energúmeno, que rolava na casa, bradando, chorando como
uma criança, infeliz deveras, por esse triste amor do outono. O pobre-diabo,
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feito de devaneio, indolência e afetação, era, em substância, tão desgraçado
como Otelo, e teve um desfecho mais cruel.
Otelo mata Desdêmona; o nosso namorado, em quem ninguém
pressentira nunca a paixão encoberta, serviu de testemunha ao Queirós, quando
este se casou com Joaninha, seis meses depois.
Nem os acontecimentos, nem os anos lhe mudaram a índole. Quando
rompeu a guerra do Paraguai, teve idéia muitas vezes de alistar-se como oficial
de voluntários; não o fez nunca; mas é certo que ganhou algumas batalhas e
acabou brigadeiro.

(Machado de Assis)